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Moradores e alunos da UFABC sofrem com onda de assaltos e violência em Santo André; especialistas debatem o tema

A segurança no entorno do campus de Santo André da Universidade Federal do ABC (UFABC) tem sido pauta de diversas discussões no âmbito municipal, regional e estadual. Entretanto,  a comunidade acadêmica e moradores ainda sofrem com assaltos violentos. Demanda antiga de moradores, alunos, professores, servidores, técnicos administrativos e todos que convivem no entorno do espaço público, a questão da segurança ainda não foi solucionada.

Na última semana, câmeras de segurança flagraram o momento em que homens em motos assaltaram alunos que caminhavam até um veículo. Os assaltantes chegaram a realizar disparos de fogo para cima, antes de levar os pertences dos jovens. Segundo informações, foram ao menos três assaltos que ocorreram de forma consecutiva. O foco dos assaltantes são celulares, carteiras e até mesmo mochilas. 

Sobre o caso, a reitoria informou que as vítimas buscaram apoio da equipe de segurança comunitária da Universidade, que prestou os primeiros atendimentos, orientou sobre a importância do registro de boletim de ocorrência e disponibilizou telefone e computador da UFABC para que pudessem formalizar o registro junto às autoridades policiais. A universidade informou também que solicitou reforço policial de rondas nas proximidades do campus através do grupo em que é membro permanente , o CONSEG-Norte, espaço de articulação entre representantes da Polícia Militar, Polícia Civil, Guarda Civil Municipal e sociedade civil.

Já uma das vítimas envolvidas neste caso, em específico, relatou que ela e a outra vítima não foram auxiliados por nenhum servidor da UFABC. Após o ocorrido, conforme mostra o vídeo, os dois estudantes saíram do local e realizaram o Boletim de Ocorrência por conta própria, contrariando a versão da reitoria.

Outros casos

Estudantes criaram um mapa colaborativo virtual para registrar os locais e como os casos aconteceram, a fim de denunciar e informar quem frequenta a região. São diversas ocorrências de tentativas, roubo e furto, inclusive à mão armada. As vias com mais notificações são as ruas Abolição, Santa Adélia e Speers – todas no entorno da universidade. Em outra iniciativa, foi criada a página de Instagram @ficaadica_pesquisa, que deve publicar depoimentos e ações relacionadas ao tema.

Território

A localização da UFABC em Santo André também contribui para esse desafio. É uma área de grande movimento, próxima ao centro da cidade e da linha de trem, o que intensifica a circulação de pessoas.

Para o pesquisador Carlos Augusto Pereira de Almeida, Mestre em Ciências Humanas e Sociais e membro do Grupo de Estudos sobre Segurança, Violência e Justiça  – SEVIJU da UFABC, o município também tem responsabilidades nesse contexto, especialmente no que diz respeito à sensação de segurança. 

“Equipamentos urbanos, como iluminação adequada, são fundamentais — e já existem estudos que comprovam que locais bem iluminados tendem a apresentar menores índices de criminalidade. No entanto, sabemos que o entorno da universidade ainda deixa a desejar nesse aspecto”, comenta Carlos.

Além disso, há problemas relacionados ao acesso aos espaços de transição, calçadas e vias de circulação, que apresentam dificuldades não solucionadas ou sequer atendidas pelo poder municipal. “A Guarda Civil Municipal (GCM), embora não tenha competência direta para atuar em patrulhamento no entorno, por não se tratar de um equipamento municipal, poderia ser integrada em políticas públicas efetivas”, detalha.

Faltam decisões e estrutura

A questão da segurança no entorno da universidade é antiga. Há anos a comunidade acadêmica e moradores buscam caminhos para avançar na questão. Para o pesquisador, a questão também é marcada pela falta de tomada de decisão das autoridades públicas ao longo do tempo, assim como pela alta demanda por segurança pública na cidade.

“No que se refere ao âmbito estadual, estamos falando do policiamento preventivo, de competência da Polícia Militar. Sabemos que a PM atende diversas demandas e, em alguns momentos, já aplicou medidas específicas na região, como patrulhas de bicicleta e viaturas estacionadas. Porém, ela também precisa cobrir todo o município de Santo André, principalmente a área da companhia que abrange a universidade. Isso faz com que a situação se assemelhe a um “cobertor curto” — típico das políticas públicas de segurança”, explica Carlos. 

“Quando há um aumento da criminalidade em determinado ponto, a polícia ocupa aquele espaço com patrulhamento por um tempo. Assim que os índices caem, eles se deslocam para outra área, e o problema muitas vezes retorna ao ponto anterior”, destaca.

Para o pesquisador, é necessário que haja uma gestão com intersecção entre todos os entes: comunidade, prefeitura, Estado e União. “Se houver diálogo entre esses atores, é possível promover melhorias reais, não só no entorno da UFABC, mas em qualquer outra região. No entanto, estamos tratando de políticas de longo prazo — justamente as mais eficientes. O clamor popular, por outro lado, tende a exigir medidas imediatistas, mas já vimos que essas ações não resolvem o problema de forma duradoura”, completa.

Comissão na Câmara debate o tema

A Câmara Municipal de Santo André também tem buscado soluções. Na última semana, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFABC esteve na Tribuna Livre da Casa cobrando melhorias. Uma comissão formada pelo vereador Clóvis Girardi (PT)  e Fábio Lopes (Cidadania) foi criada para intermediar o diálogo entre a Secretaria de Segurança Cidadã da Prefeitura de Santo André e a Universidade.

Um dos caminhos sugeridos é o programa de vizinhança solidária. “Sugerimos, junto com o secretário de Segurança, o Coronel Telmo, que a gente tenha o programa vizinhança solidária na UFABC com ação preventiva da GCM, tanto no entorno do campus quanto nas escolas e nos comércios da região”, comentou Clóvis.

O vereador também indicou a instalação de câmeras de videomonitoramento e de totens de segurança interligados ao COI, seguindo o exemplo de Diadema, além de poda de árvores na rua Abolição e melhorias na iluminação.

Problema multifatorial

Professor adjunto da UFABC, Doutor e Mestre em Sociologia formado pela USP, Wilson Mesquita de Almeida detalha que o problema é multifatorial e complexo, portanto, exige um conjunto de soluções.

A questão da mobilidade é um dos temas centrais na discussão. Para o professor, a falta de segurança passa pelo serviço de ônibus fretado que é oferecido pela universidade.

 “Mesmo o fretado, que faz o deslocamento entre os campus e poderia ajudar na maior segurança, foi desfigurado em relação aos trajetos que antes fazia: deixando e pegando seus passageiros em pontos seguros dentro da UFABC ou próximo à Estação de Trem. Além disso, poderia melhor otimizar as rotas – mais ônibus nos horários de pico e veículos de pequeno porte ao longo do dia. Isso é possível fazer mesmo nos momentos atuais de restrição financeira. Além disso, ao deslocar o ponto do fretado para fora da UFABC próximo à Avenida do Estado e não oferecer nenhum apoio de segurança e ronda, deixa-nos a todos suscetíveis aos ladrões”, comenta Wilson.

Um posto fixo de policiamento também pode fortalecer a segurança no entorno, aponta o professor. “Precisamos de um posto fixo de policiamento e vigilância – a discutir se armada ou não dada a gravidade atual existente – nos pontos críticos de contato com o entorno. Esse fato é urgente e atende a interesse coletivo, pois os moradores da região também são vítimas. É preciso ter ronda, patrulhamento no ponto do fretado, melhor iluminação, o que favorece maior circulação de gente e tem melhor efeito de dissuasão para eventuais roubos e furtos”, explica o sociólogo.

A segurança interna também deve ser debatida. Para o professor, a universidade também tem papel nessa construção, para além da participação em comitês de governança ou diálogo com o município e o estado. “A segurança interna tem de ser totalmente remodelada e cobrada nas suas atribuições. Tem de separar quem fica internamente cuidando do controle do acesso e guarda patrimonial, daqueles que também podem auxiliar na ronda e vigilância dos transeuntes que frequentam, cotidianamente, o entorno da universidade. Patrimônio, sem gente ativa nele, é patrimônio morto, nulo”, conclui.

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