Entre versos e baião, Conceição Rosa apresenta Luiz Gonzaga às novas gerações
Coluna Rafael Marques*
Há personagens que não pertencem apenas à história. Pertencem à memória afetiva de um povo. Luiz Gonzaga é um deles. Sua voz, sua sanfona e sua defesa das raízes nordestinas atravessaram gerações e continuam ecoando na cultura brasileira. Agora, essa trajetória ganha novos leitores pelas mãos da escritora Conceição Rosa, que lançou, no fim de junho, o livro infantil Luiz, do sertão e do mundo.
Tive a alegria de prestigiar esse momento e conversar com a autora sobre a construção da obra. O que encontrei foi muito mais do que um livro sobre um artista. Encontrei um projeto de valorização da cultura brasileira, da representatividade e da infância.
Conceição conta que a ideia nasceu em 2025, durante a preparação de uma atividade para uma festa junina. Na ocasião, escreveu pequenos textos sobre a vida de Luiz Gonzaga, que foram distribuídos em arupembas, as tradicionais peneiras de palha nordestinas. Após a leitura, o público participava de uma apresentação de forró e de uma oficina cultural. Apesar da boa receptividade, a escritora percebeu que ainda faltava algo: uma linguagem que conversasse verdadeiramente com as crianças.
Foi dessa inquietação que nasceu o livro. No ano seguinte, ela reorganizou todo o material em forma de rimas, transformando a pesquisa em poesia. Documentários, entrevistas e, principalmente, as canções de Luiz Gonzaga acompanharam todo o processo de escrita, dando ritmo e autenticidade à narrativa.
O resultado apresenta às crianças muito mais do que o Rei do Baião. As páginas revelam o menino nascido no sertão, o jovem que deixou sua terra, serviu ao Exército e, mais tarde, compreendeu que sua maior riqueza estava justamente nas próprias origens. A obra também evidencia a influência da família, especialmente de seu pai, o velho Januário, primeiro mestre da sanfona, além das amizades, das parcerias e da generosidade que marcaram a vida do artista.
Ao falar sobre a construção do livro, Conceição revela que buscou mergulhar na humanidade de Luiz Gonzaga. Enquanto escrevia, ouvia suas músicas e revisitava sua história. Foi um exercício de escuta, respeito e sensibilidade diante de um homem que transformou a cultura popular brasileira em patrimônio universal.
A autora também vê na literatura infantil um importante instrumento de educação e transformação social. Para ela, apresentar Luiz Gonzaga às crianças é uma forma de fortalecer a representatividade negra e valorizar a cultura nordestina dentro das escolas, em sintonia com os princípios da Lei nº 10.639, que trata do ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira.
Com 35 anos dedicados à Educação Infantil e aos anos iniciais do Ensino Fundamental, Conceição conhece profundamente o universo da infância. Talvez por isso sua escrita seja delicada, sem ser simplista. Ela acredita que um bom livro infantil deve despertar curiosidade, provocar descobertas e abrir caminhos para novas aprendizagens. E, segundo conta, esse movimento tem alcançado também os adultos, que frequentemente compartilham suas emoções após a leitura.
Mais do que apresentar uma biografia, Luiz, do sertão e do mundo deixa um convite: que as crianças continuem pesquisando, ouvindo as canções de Gonzaga e descobrindo outros capítulos da história desse brasileiro que fez do sertão um lugar conhecido em todo o mundo.
Quando perguntei qual passagem imaginava que mais emocionaria Luiz Gonzaga, caso pudesse ler o livro, Conceição respondeu sem hesitar: os trechos dedicados ao velho Januário, pai e mestre, responsável por despertar no filho o amor pela sanfona e pelas tradições nordestinas.
A escritora também adiantou que seu próximo trabalho já está concluído. Em parceria com Daiane Tavares da Silva, ela levará para a literatura infantil a história do cantor, percussionista e sambista Mumu de Oliveira, dando continuidade ao seu propósito de apresentar às novas gerações personagens fundamentais da cultura brasileira.
Ao final da conversa, ficou evidente que Conceição Rosa não escreve apenas livros infantis. Ela escreve pontes entre gerações. Faz da literatura um espaço de encontro entre a memória e a infância, entre a cultura popular e a formação de novos leitores. E, ao colocar Luiz Gonzaga nas mãos das crianças, ajuda a garantir que o som da sanfona continue ecoando muito além dos palcos, encontrando abrigo também nas páginas de um livro.
*Rafael Marques é Escritor, pedagogo, filósofo e Psicanalista. Especialista em Educação Especial, História da cultura Afro, literatura e Terapeuta Ocupacional na saúde mental. Atua como Coordenador Pedagógico em uma Escola Municipal da Cidade de São Paulo. Tem 6 livros publicados e é integrante do CARP e do Clube de escritores de Ribeirão Pires.
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