Rubens Cavalcanti da Silva: a arte como resistência em tempos de fragmentação
Coluna Rafael Marques*
Há artistas que retratam o mundo. Outros o questionam. Rubens Cavalcanti da Silva faz as duas coisas. Sua produção artística nasce da observação atenta da realidade e transforma resíduos do cotidiano em obras que provocam reflexão sobre a sociedade, o consumo, a memória e a condição humana. Em suas mãos, aquilo que muitos descartam ganha novos significados, tornando-se linguagem artística e instrumento de crítica social.
Conheci a trajetória de Rubens e fui imediatamente impactado pela coerência entre sua produção e sua maneira de compreender o mundo. Sua pesquisa, desenvolvida há anos na área da gravura, da colagem e dos livros de artista, revela um criador inquieto, que utiliza fragmentos de materiais descartados, restos de pinturas, vidros quebrados, embalagens, cascas de tinta e elementos da cultura digital, para construir narrativas visuais marcadas pela potência simbólica.
Sua relação com Ribeirão Pires é antiga. Foi ainda morando em Suzano que iniciou sua caminhada nas artes plásticas, ao lado do artista Nerival Rodrigues. Em busca de espaços para apresentar sua produção, encontrou em Ribeirão Pires um ambiente acolhedor para os artistas, participando das tradicionais exposições realizadas aos sábados na praça central da cidade e, posteriormente, de um Salão de Arte promovido pelo município. Décadas depois, esse vínculo se renova com a realização da exposição “Recicle-se +”, na Pinacoteca Municipal de Ribeirão Pires, marcando um retorno carregado de significado para sua trajetória.
Atualmente residente em Santo André, Rubens possui formação em Artes Plásticas e, motivado pelo trabalho que desenvolve em oficinas artísticas, especialmente com pessoas com deficiência, especializou-se também em Arteterapia. Essa formação amplia ainda mais sua compreensão da arte como ferramenta de expressão, inclusão e desenvolvimento humano.
Seu percurso artístico é reconhecido nacionalmente. Obras de sua autoria integram importantes acervos brasileiros, entre eles a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, a Biblioteca de ArtesVisuais da própria Pinacoteca paulista, a Pinacoteca Aldo Locatelli, em Porto Alegre, e o Museu Barão de Mauá. Essa presença em instituições de referência demonstra a consistência de uma produção construída ao longo de décadas de pesquisa e experimentação.
Sua trajetória expositiva também impressiona. Entre as exposições individuais destacam-se “Recicle-se +” (2026), na Pinacoteca de Ribeirão Pires; “Recicle-se” (2025), na Pinacoteca de Mauá; “Cores & Segredos” (2023), em São Bernardo do Campo; “Mensagens de Plástico” (2020), na Pinacoteca de São Bernardo do Campo; “Próximo Lance” (2019), no Metrô de São Paulo; e “Cuidado Frágil” (2015), no Museu Histórico Barão de Mauá.
Além das exposições individuais, Rubens construiu uma sólida participação em mostras coletivas no Brasil e no exterior. Entre elas, destacam-se Universal Human Rights Art Collection, em Miami (Estados Unidos), o Projeto Gravuras pela Paz, realizado entre Brasil e México, a exposição itinerante Mapas de Influências, com apoio da FUNARTE, e o 1º Prêmio Maimeri de Pintura da América Latina, cuja mostra percorreu Brasil e Argentina.
Entretanto, talvez seja na concepção de sua obra que resida sua maior força. Rubens parte de uma percepção profundamente crítica da contemporaneidade. Em seu entendimento, vivemos um tempo marcado pela deterioração das instituições, pelo enfraquecimento de valores como honestidade, solidariedade e compaixão e pela naturalização da violência, das desigualdades e da indiferença. Para ele, os escombros materiais encontrados nas cidades tornam-se metáforas da própria condição humana.
Essa reflexão aparece de maneira contundente em suas obras. Fragmentos de paredes, restos de pinturas, embalagens de produtos consumidos diariamente, vidros quebrados e ícones da cultura digital deixam de ser simples resíduos para compor imagens carregadas de memória, crítica e poesia visual. O descarte transforma-se em permanência. O que parecia não ter mais valor passa a contar histórias.
Ao visitar uma exposição de Rubens Cavalcanti da Silva, o público rapidamente percebe que não está diante apenas de objetos artísticos. Está diante de perguntas. Perguntas sobre o que consumimos, o que descartamos, o que preservamos e, sobretudo, sobre aquilo que estamos nos tornando enquanto sociedade.
Sua produção nos convida a olhar para os vestígios do nosso tempo e compreender que, muitas vezes, é justamente nos fragmentos que permanecem as narrativas mais profundas. Em um mundo que insiste em substituir, descartar e esquecer, Rubens escolhe reconstruir, ressignificar e provocar. E talvez seja exatamente essa a grande missão da arte: fazer-nos olhar novamente para aquilo que acreditávamos já não ter importância.
*Rafael Marques é Escritor, pedagogo, filósofo e Psicanalista. Especialista em Educação Especial, História da cultura Afro, literatura e Terapeuta Ocupacional na saúde mental. Atua como Coordenador Pedagógico em uma Escola Municipal da Cidade de São Paulo. Tem 6 livros publicados e é integrante do CARP e do Clube de escritores de Ribeirão Pires.
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